Conhecido pela decoração inspirada no Mickey, personagem de desenho animado, atrações circenses, pirotecnia e shows, o chamado Baile da Disney se tornou uma das festas mais conhecidas do Complexo da Maré. Agora, o evento aparece no centro de uma investigação da 21ª DP (Bonsucesso), que o aponta como um dos principais mecanismos de movimentação financeira do Terceiro Comando Puro (TCP).
Realizado todos os sábados no campo da Vila do João, na Rua Quatorze, o baile é descrito pela Polícia Civil como um elemento central do esquema de lavagem de dinheiro investigado na Operação Trinus, deflagrada nesta quarta-feira (10) para cumprir 56 mandados de prisão e 42 de busca e apreensão contra integrantes da facção.
Segundo a corporação, a festa funcionava como canal de escoamento de mercadorias roubadas e concentrava receitas obtidas com a venda de bebidas, alimentos e espaços explorados sob controle do grupo criminoso.
Ainda segundo os investigadores, a estrutura financeira do evento também viabilizaria o pagamento de cachês e presenças VIP de figuras públicas, prática que, na avaliação da polícia, serviria para fortalecer a reputação das lideranças criminosas e ampliar sua influência dentro e fora das comunidades.
Outro ponto destacado pela polícia são registros feitos em edições anteriores da festa. Segundo a investigação, foram identificados homens armados com fuzis circulando em meio ao público. Em um dos registros analisados, os agentes estimaram a presença de cerca de 40 armas durante um cortejo realizado no evento.
Com mais de 100 mil seguidores no Instagram, o Baile da Disney já esteve no centro de outras investigações envolvendo o TCP. Em 2024, a Polícia Civil apurou a divulgação de uma fotografia em que a influenciadora, advogada e cantora Deolane Bezerra aparece usando um colar atribuído a Thiago da Silva Folly, conhecido como TH da Maré, durante uma edição do evento na Vila do João.
À época, TH, de 36 anos, era apontado como um dos chefes do tráfico de drogas no Complexo da Maré, e estava na mira das autoridades há 9 anos. Ele foi morto em maio de 2025 em uma operação da Polícia Militar. Um dos principais nomes do Terceiro Comando Puro (TCP), ele acumulava 227 anotações criminais por homicídio, roubo, tráfico de drogas e outros delitos, além de 17 mandados de prisão em aberto.
Ao longo dos anos, o baile também recebeu apresentações de artistas do cenário do funk e do rap, entre eles Oruam, TZ da Coronel e MC Lipi, tornando-se um dos eventos mais conhecidos da Maré.
Em publicações na página oficial do evento no Instagram, os organizadores promoviam sorteios de Dia das Mães com dezenas de prêmios, entre eles panelas elétricas, secadores de cabelo, ferros de passar, air fryers e até motocicletas. Em algumas edições, os produtos eram exibidos no campo onde o baile é realizado antes da distribuição aos vencedores.
A investigação aponta que estabelecimentos comerciais da região eram utilizados para receptação e revenda dos produtos roubados. Os policiais afirmam ainda que a facção exerce controle sobre serviços considerados essenciais em áreas da Maré, como fornecimento de internet, venda de gás de botijão e distribuição de água. Segundo a corporação, o Baile da Disney integrava essa cadeia econômica.
Os investigadores afirmam ter identificado uma estrutura que envolvia autorização das ações pelas lideranças, execução dos roubos, armazenamento das mercadorias e posterior escoamento dos produtos por estabelecimentos comerciais, bares, plataformas de marketplace e pelo próprio baile.
*Com informações de O Globo




