O bispo dom Roberto Francisco Ferreira Paz, da diocese de Campos, afirmou à jornalista Mônica Bergamo, Folha de São Paulo, que o candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) precisa esclarecer com urgência o alcance de sua decisão de “decretar que o Brasil é do senhor Jesus Cristo”.
Ele fez a afirmação em agosto, ao justificar sua ausência no debate da TV Bandeirantes afirmando que gostaria de debarer com quem “não acredita em Deus” pois oficializaria a decisão.
“O candidato disse que este será o seu primeiro ato de governo. É uma decisão perigosa porque envolve todas as outras religiões”, afirma o bispo, que integra a Pastoral da Saúde e a Comissão para o Laicato da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).
“O que pode significar isso para a liberdade religiosa e para os religiosos não-cristãos?”, questiona. “Haverá privilégios para os cristãos? São coisas que ficam no ar. A liberdade religiosa e de crença é um dos princípios da Constituição brasileira e interessa a todas as religiões. Se um não é respeitado em sua religião, ninguém mais será”.
O bispo afirma que condutas parecidas já foram adotadas por mandatários de outros países, e cita o Chile de Augusto Pinochet como exemplo. O ditador, nos anos 1970, privilegiou as agremiações evangélicas para neutralizar a igreja católica, que fazia forte oposição às perseguições, torturas e mortes promovidas por seu governo.
Dom Roberto cita também a influência “de doutrina dominacionista que nasceu no fundamentalismo religioso pentecostal radical dos EUA, que prega a hegemonia do cristianismo evangélico, que quer dominar a política”.
Entenda polêmica
Flávio Bolsonaro entrou em rota de colisão com a CNBB ao afirmar que “gente de dentro” da entidade ajudou a divulgar uma fake news, a de que ele, se eleito, retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Nesta segunda (28), ele acenou para a entidade: “Agradeço à CNBB por confirmar que isso é uma grande fake news”, referindo-se a nota da conferência desmentindo que tivesse espalhado a notícia.
Dom Roberto afirma que é necessário “se ater ao que o candidato disse. E ele disse que baixará um decreto que pode ter graves consequências”.
Para o bispo, Flávio, no caso do prometido decreto sobre Jesus Cristo, não manifestou apenas um desejo, mas sim divulgou uma intenção política e de governo, e por isso deve ser cobrado para esclarecimentos.
“Não cabe a um candidato a presidente dizer isso. Se ele é cristão [Flávio é evangélico], pode fazer uma declaração de fé. Mas não pode anunciar um ato que fere a laicidade do Estado brasileiro.”
“Ele não pode fazer de sua crença uma política pública, adotando no Brasil o confessionalismo de Estado”, segue o religioso. “O Estado não tem fé. O Estado deve garantir o exercício da fé de todos, deve garantir a liberdade religiosa para todos. Ele, se for eleito, governará para todos, independente da religião que tenham”.
Dom Roberto afirma ainda que, por comandar um Estado laico, um presidente não pode ter critério religioso em suas definições de governo. “Ele não pode, por exemplo, escolher alguém para um cargo por ser terrivelmente evangélico”, diz, referindo-se indiretamente à frase do ex-presidente Jair Bolsonaro ao justificar a escolha de André Mendonça para o STF (Supremo Tribunal Federal).




